Consignação: estoque e receita

CADERNO CONTÁBIL · COMÉRCIO E CANAIS DE VENDA

Mercadoria enviada não é, por si só, mercadoria vendida. Na consignação, a pergunta central é quem controla o produto e em que momento nasce a receita.

A decisão começa no contrato, não na remessa

Uma empresa entrega produtos a uma loja parceira para exposição e venda. O estoque saiu fisicamente do depósito, mas pode continuar sob controle da fornecedora. Se a loja só paga pelas unidades vendidas ao consumidor e pode devolver as restantes, tratar toda a remessa como faturamento infla receita e lucro antes de existir a venda que o contrato prevê. Na outra ponta, a loja não deve registrar automaticamente como compra própria um produto sobre o qual ainda não assumiu controle.

O CPC 47, itens B77 e B78, orienta a verificar se o destinatário obteve controle do bem quando ele foi entregue. Um arranjo pode ser de consignação quando o fornecedor mantém controle até a venda ou outro evento, pode exigir devolução ou transferir o produto e o revendedor não tem obrigação incondicional de pagar. São indicadores, não um teste mecânico de uma única cláusula. A documentação comercial precisa ser lida por inteiro.

O que separar nos sistemas

A conciliação fica mais confiável quando cada lote possui três registros relacionados: posição física, posição contratual e resultado financeiro. A posição física diz onde estão as unidades; a contratual indica titularidade, controle, prazo e direito de devolução; a financeira mostra vendas confirmadas, remuneração do parceiro, repasses e créditos. Ter somente uma planilha de remessas e outra de depósitos dificulta provar a receita e localizar perdas.

EventoControle operacionalQuestão contábil
Envio à lojaRemessa, lote, SKU, quantidade e dataO destinatário adquiriu controle ou apenas custódia?
Venda ao cliente finalPedido, comprovante, preço e dataQuando e por qual valor a obrigação foi satisfeita?
Comissão ou margem do parceiroContrato e demonstrativo por pedidoO parceiro atua como agente ou principal?
DevoluçãoUnidade, condição e localizaçãoEstoque recuperável, avaria ou ajuste de preço?
RepasseValor bruto, descontos e depósitoO que liquida recebível e o que é despesa ou outro ajuste?

Exemplo conciliado de um lote

Hipótese didática: a fabricante envia 100 unidades que custaram R$ 60 cada para uma loja parceira. Durante o mês, a loja vende 40 unidades a R$ 100 por unidade. O contrato prevê uma comissão de R$ 15 por unidade vendida e devolução das não vendidas. Suponha, somente para ilustrar a ponte econômica, que a fabricante permaneça principal perante o consumidor, que tenha direito a R$ 4.000 de contraprestação pelas 40 vendas e que não haja tributos, frete, devoluções de consumidor nem restrição de preço. O enquadramento real depende dos fatos e do contrato.

Ponte do mêsCálculoValor
Unidades inicialmente remetidas100 × R$ 60 de custoR$ 6.000
Unidades vendidas ao consumidor40 × R$ 100R$ 4.000
Custo das 40 unidades vendidas40 × R$ 60R$ 2.400
Comissão contratual da loja40 × R$ 15R$ 600
Repasses a conciliarR$ 4.000 − R$ 600R$ 3.400
Estoque ainda em poder da loja60 × R$ 60R$ 3.600

Neste exemplo, o envio das 100 unidades não gera R$ 10.000 de receita. A venda de 40 unidades é o evento usado na hipótese de reconhecimento; o saldo de 60 continua controlado e precisa aparecer na contagem por local. A diferença entre receita bruta do exemplo e depósito não é automaticamente perda: pode ser a comissão contratada. Se o parceiro for principal, o preço da transação e a apresentação de receita podem mudar. Não reutilize o exemplo como lançamento universal.

Principal, agente e a comissão

Em arranjos de marketplace e varejo, duas questões precisam ser respondidas separadamente: quem controla os bens antes da transferência ao cliente final e qual é a promessa de cada parte. O CPC 47, itens B34 a B38, orienta a análise de principal versus agente. O fato de a loja receber o dinheiro do consumidor ou emitir um demonstrativo de repasse não define, sozinho, quem deve apresentar receita pelo valor bruto da venda.

Se a loja apenas organiza a venda de bens controlados pela fornecedora, sua remuneração pode representar a comissão ou taxa a que tem direito, conforme o contrato. Se, ao contrário, adquire controle do produto antes de transferi-lo ao consumidor, a análise de compra, estoque e receita própria é outra. Avalie responsabilidade primária perante o cliente, risco de estoque, discricionariedade na definição de preço e demais fatos. O rótulo comercial “consignação” não substitui essa avaliação.

Devolução, avaria e vencimento

A unidade não vendida pode retornar íntegra, vencer, desaparecer ou ser danificada. Cada evento pede evidência diferente: autorização de retorno, comprovante de transporte, contagem, laudo de avaria e eventual cobrança ao parceiro. Sem esse circuito, o saldo em terceiros pode ficar artificialmente estável por meses enquanto a mercadoria já não é recuperável. O CPC 16 trata da mensuração dos estoques pelo menor entre custo e valor realizável líquido, entre outros critérios aplicáveis.

Separe também devoluções feitas pelo consumidor final depois de uma venda. Elas não são a mesma coisa que o retorno de produto consignado que nunca foi vendido. Uma pode afetar estimativas de contraprestação e obrigações de reembolso; a outra volta à posição física de estoque, sujeito à condição do item. O time fiscal deve avaliar documentos, CFOP e tributos conforme operação e jurisdição; esta página não presume um procedimento fiscal único.

Rotina de fechamento que evita receita duplicada

No fechamento, extraia relatório de remessas abertas por SKU e parceiro; some vendas confirmadas no período; compare com devoluções, perdas e saldo físico informado; reconcilie demonstrativos de comissão e repasse com pedidos e extratos; e investigue diferenças antes de transferi-las para “ajustes diversos”. A equação quantitativa básica é: saldo inicial em terceiros + remessas − vendas − retornos − perdas justificadas = saldo final em terceiros. A equação monetária depende do custo atribuído a cada unidade e das condições de venda.

Conserve contrato vigente, aditivos, notas, pedidos, comprovantes de entrega, relatórios de venda, contagens e demonstrativos de pagamento com identificadores comuns. Quando houver várias lojas e plataformas, use um código por parceiro e lote. Essa estrutura também ajuda a localizar rupturas e a comparar a rentabilidade líquida de cada canal sem misturar comissão com custo de produto.

Perguntas que surgem na prática

Posso reconhecer a receita assim que a mercadoria sai do meu depósito?

Não apenas pelo deslocamento físico. Verifique a transferência de controle e os demais requisitos do contrato com o cliente. Em consignação, a remessa ao revendedor pode ocorrer antes da venda que justifica a receita; o CPC 47 trata exatamente dessa diferença.

A loja deve incluir todo o consignado no próprio estoque?

A presença física não decide a titularidade econômica. O tratamento depende de quem controla o bem e de como o contrato distribui direitos e obrigações. Mantenha controle físico das unidades recebidas de terceiros mesmo quando elas não integrem o estoque próprio.

O repasse líquido é a receita?

Nem sempre. O depósito pode vir reduzido por comissão, antecipação, devolução, ajustes ou taxas. Reconstrua a ponte entre venda, preço da transação aplicável, remuneração do parceiro, recebível e caixa antes de classificar o valor.

Como usar este guia

Este material complementa o guia sobre estoque em poder de terceiros, que foca custódia e inventário, e o mapa contábil do e-commerce, que liga pedidos, estoque e repasses. Para desenhar rotina, responsabilidades e indicadores dessa operação, veja o BPO contábil da Costa Nova Growth Office ou converse com a equipe. A conclusão contábil e fiscal de uma operação específica exige contrato e documentos reais.